Baudolino

09/02/2010 por fabiocamacho

Erudição com diversão é um lugar comum para descrever a obra de ficção de Umberto Eco. Metalinguagem também. O jogo com o duo realidade x ficção também. O talento para o thriller também. Não sei como falar sobre Baudolino sem cair no lugar comum e, entretanto, o livro não é nada menos que surpreendente – contos medievais do ciclo do Graal e a teoria freudiana do complexo de Édipo mostram como as fontes do autor são diversas.

Destaco a passagem em que, chegando às terras orientais, além do rio de pedras, o grupo de aventureiros encontra uma brilhante alegoria do que foi (e é) a guerra das doutrinas no seio do cristianismo.

Leitura longa, às vezes pesada, mas vale muito a pena. Como as viagens de Baudolino (putz, isso também é lugar comum).

Mordendo a língua

05/08/2009 por ligia

Quando era pequena, gostava que meus pais lessem para mim, mesmo quando já era capaz de decifrar as palavras sozinha. Gostava também de ouvir uns discos e fitas coloridos da Disney que, em vez de músicas, continham histórias. Esses hábitos foram embora logo. Passei a ler os livros para mim mesma e a ouvir fitas e discos de música, apenas.

A idéia de um audiolivro, para mim, era associada a crianças ou a cegos. Sem brincadeira. A crianças, pela minha própria experiência na infância; a cegos, porque há um trabalho de produção de “livros falados” na fundação Dorina Nowill. Além disso, eu imaginava que ouvir um livro daria sono na certa.

Pois bem. Com o intuito de contar no blog, resolvi fazer uma experiência tentando ouvir um audiobook. Qual livro ouviria? Achei que uma newbie no mundo da leitura pelo ouvido deveria começar por algo simples. Como eu tinha parado de ler a série Harry Potter no livro 4, resolvi escutar o 5 (HP and the Order of the Phoenix).

Inesperadamente, eu consegui86093108a, sim, prestar atenção sem dormir (sentada, claro, porque das vezes que tentei ouvir na cama, acabei cochilando). Fui tomando gosto pela coisa e me envolvendo com a história, com os personagens, que são muito bem interpretados pelo “narrador” Jim Dale. Sim, consegui ir até o fim – e olha que o livro é longo! – e emendei a leitura “escuta” do HP and the Half-Blood Prince.

Viciei na interpretação do Jim Dale. Agora eu estou ouvindo o último livro e, sério, se tivesse tempo sobrando na minha vida, ouviria os outros livros da série que li. Adorei a experiência. E ainda tem uma vantagem que é deixar o corpo livre para fazer coisas que não te impedem de prestar atenção. Dá pra ouvir um livro correndo, andando de bicicleta, caminhando; lavando a louça, arrumando a casa; fazendo trabalhos manuais ou coisa que o valha.

Numa época corrida como a nossa, em que todos alegam não ler por falta de tempo, eis a solução: escute!

Imagem: Gettyimages.com

Conversas com Woody Allen, de Eric Lax

04/07/2009 por ligia

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Os Mortos (ou “o motor da poesia”)

26/06/2009 por fabiocamacho

jobim“pois apenas como fenômenos estéticos são a existência e o mundo eternamente justificados” – F. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia

Pois ontem estava eu entre muitas cotoveladas tentando enxergar o Toquinho, que fazia um desses shows gratuitos na praça, em Ribeirão Preto. A possibilidade de qualquer menção à morte do estranhíssimo Michael Jackson durante o show parecia igualmente incabível e inevitável. Mas não precisou falar nada, porque a morte está irrevogavelmente coroada na poesia dessa geração Bossa Nova.

De qualquer modo, o poeta sem a morte é como o Homero balbuciante de Borges, em Os Imortais. O Rei Lear, sem Cordelia morta nos braços, seria só um velho demente. Yehoshua jamais seria o herói-sol do Salmo 45 sem ter passado pelo Hades. E como Sheherazade ensinou, a vida da poesia não é contada em dias, mas em noites, porque a morte é seu motor, sua natureza, seu ambiente.

Toda obra literária é uma espécie de Terra do Nunca californiana. Imaginei esta insólita conversa, ontem no meio do show. Preocupado, Toquinho advertia Jackson: ”Que é que há? Diz pra mim, o que é que há? Você vai ver, um dia, em que fria você vai entrar. Por cima, uma laje; embaixo, a escuridão. É fogo, irmão. É fogo, irmão.”

Post dedicado à minha amiga Marina, pois juntos cercamos o Toquinho no elevador do shopping, há uns anos.

Os filhos de Anansi, de Neil Gaiman

19/06/2009 por tracinha

Os Filhos de Anansi

Relação física

12/06/2009 por ligia
Não sei quanto a você, mas minha experiência com um livro não se resume ao seu conteúdo. A experiência se inicia antes de ler: por algum motivo ou outro, tenho algumas ideias sobre o livro, recomendações, coisas que li sobre ele, que me levam a querer lê-lo. Depois da vontade de ler, compro uma cópia ou pego emprestada, e então a relação que era abstrata passa a ser também física: visual, tátil, olfativa (e até gustativa, se você é daqueles que lambem a ponta do dedo para virar a página. Não é o meu caso).

Para mim, a relação física com um livro é muito importante. Apesar de a Tia Maricota ter nos ensinado, junto com o a-b-c, que não devemos julgar um livro pela capa, é inegável que as capas constituem a nossa primeira impressão de um livro, quando estamos perambulando e fuçando numa livraria, por exemplo, e muitas vezes são belas capas que nos levam a folhear títulos desconhecidos.

Além disso, como a capa é a primeira parte que vemos do livro, uma das primeiras ideias que fazemos dele vem dessa visão. E ela pode transmitir tanta coisa: pode ser engraçada, inusitada, intrigante; pode ser angustiante, perturbadora, misteriosa; pode ser alegre, despretensiosa, leve… Pode ser péssima, também, e aí estraga um pouquinho o livro, não é mesmo? Ou ao menos a ideia toda que fazemos dele.

Em seguida à admiração (ou ao horror) da capa, vem o miolo, com os mais variados tipos de papel com seus respectivos cheiros, texturas e cores. Particularmente não gosto do cheiro nem da cor de papel jornal, mas como o precinho é amigo, tenho que conviver com isso. Por outro lado, acho que ele tem uma textura bonita (experimente olhar meio de viés e reparar no efeito das ranhurinhas junto com as letras impressas no papel). O papel branco é ok, mas aquele amarelinho claro da Cosac Naify é o meu preferido em termos de cor, cheiro e textura.

Depois de tudo isso, vem o que está escrito no papel (não sem antes reparar na fonte em que o texto foi impresso). E a experiência de ler acaba sendo uma mescla das impressões que as pré idéias, a capa, a cor, o cheiro, a textura, a fonte e os escritos do livro provocam em mim.

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 Algumas capas da Cosac Naify: livros de Bioy, Gorki e Elio Vittorini

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Capas feitas por Sanda Zahirovic.  Fonte: The Book Cover Archive

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Edições de luxo da Penguin. Fonte: The Penguin Blog

 

O autor como metáfora

04/06/2009 por fabiocamacho

 ssontagQuando Susan Sontag procurou excluir a metáfora da experiência humana da doença, construiu um poema involuntário. Sua proposta é tão impossível e absurda, que só poderia surgir no discurso de um aflito, um poeta. Assim, embora as pretensões sociológicas de “A Doença como Metáfora” tenham sido, em parte, traídas por esse sentimento de aflição e urgência, suas possibilidades poéticas (metafóricas), terminaram por aflorar.

 A metáfora é a espécie mais primitiva (e nas mãos do artista, a mais elaborada) de má leitura. A interconversão dos objetos e dos conceitos, a confusão de suas definições e características, é a matéria prima do fingimento que está no centro da poesia. Todo texto, em essência, é uma releitura dos antecedentes, necessariamente uma leitura deslocada, distorcida, que se impõe na forma escrita a fim de opor-se aos textos originais.

 Na obra como alegoria de outras obras, às vezes o autor ocupa a desconfortável posição de proposta metafórica adicional, elemento do sistema complexo de referências que constitui a arte poética. Suas pretensões políticas, racionais, ideológicas, são ofuscadas pela força das tensões entre os textos antagonistas subjacentes ao seu discurso, e mesmo a biografia do autor é encoberta, aí.

 Sem a leitura equivocada de tudo o que se dizia sobre seu próprio mal, Sontag não teria passado da intelectual acometida por uma doença grave. Sua tentativa de transpor  o véu dos enganos que liam obliquamente a experiência do câncer e outras doenças, entretanto, resultou em mais um tropo. Ao atentar contra a metáfora, Susan Sontag, a racionalista, tornou-se Jó, o poeta doente.

Everything is illuminated, Jonathan Safran Foer

03/06/2009 por ligia

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 ”One day you will do things for me that you hate. That is what it means to be a family.”
 ”I am doing something I hate for you. This is what it means to be in love.”

 [WIP]

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra – Mia Couto

29/05/2009 por tracinha

[breve]

Seis problemas para don Isidro Parodi, de H. Bustos Domecq

27/05/2009 por ligia

Seis problemas para don Isidro Parodi - imagenSeis problemas para don Isidro Parodi são contos de Honorio Bustos Domecq, o “terceiro homem” criado por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares escrevendo em colaboração. 

Borges e Bioy conheceram-se por volta de 1931, na Villa Ocampo. Na época, Adolfito contava apenas 17 anos; Giorgie, mais de 30. Mesmo com a diferença de idade, a amizade entre os dois foi instantânea e definitiva.

No entanto, foi só em 1941 que os escritores inventaram Bustos Domecq, “Bicho Feio” para os íntimos (Bustos é sobrenome de um bisavô de Borges e Domecq, de um bisavô de Bioy). No ano seguinte, publicaram Seis problemas para don Isidro Parodi, sob o pseudônimo dual, com prefácio de Gervasio Montenegro, “amigo do autor e membro da Academia Argentina de Letras”. Diz Gervasio, sobre Bustos Domecq:

“Novo rebento da tradição de Edgard Poe, o patético, do principesco M. P. Shiel e da baronesa de Orczy, atém-se aos momentos capitais de seus problemas: a proposição enigmática e a solução iluminadora. (…) os personagens acodem em pitoresco tropel à cela 273, já proverbial. Na primeira consulta, expõem o mistério que os aflige; na segunda, ouvem a solução que pasma por igual a crianças e anciãos.”

Os personagens vão à cela 273 porque é na cadeia que se encontra o detetive Isidro Parodi. E é de dentro de sua cela, apenas ouvindo os relatos de seus visitantes enquanto ceva o mate na canequinha azul-celeste, que Don Isidro decifra o enigma.

“A imobilidade de Parodi é todo um símbolo intelectual e representa o mais rotundo dos destemidos à vã e febril agitação norte-americana (…).” (Gervasio Montenegro)

Borges e Bioy brincam com o gênero policial sob a voz literária de “Bicho Feio”. Não é à toa que o sobrenome de seu detetive lembra a palavra “paródia”. Apesar de repleto de invenções bem ao gosto de Borges (inventa escritor para prefaciar o livro, inventa personagens que são escritores de livros com títulos impagáveis etc.), é impossível apontar onde está Borges e onde está Bioy. Afinal, como se escreve em dupla?

“Conversávamos livremente sobre a idéia que tínhamos de um tema até que se ia formando, quase sem que propuséssemos, um projeto comum. Depois eu me sentava para escrever, (…). Se a um ocorria a primeira frase, propunha-a, e assim com a segunda e a terceira, os dois falando. Ocasionalmente Borges me dizia: ‘Não, não vá por aí’, ou eu lhe dizia: ‘Já chega, são brincadeiras demais’.” (Bioy)

Dentro da fórmula do gênero policial clássico (“proposição enigmática e solução iluminadora”) Borges e Bioy colocaram muito humor, ironia e sátira. Lendo os contos, eu invocava com uma palavra, com uma frase, e me perguntava: “Quem será que inventou essa?”. Engraçado. Não costumo imaginar o escritor criando enquanto leio um livro. Mas nesse caso foi diferente. Durante toda a leitura, visualizava os dois se divertindo.