Mordendo a língua

05/08/2009 por ligia

Quando era pequena, gostava que meus pais lessem para mim, mesmo quando já era capaz de decifrar as palavras sozinha. Gostava também de ouvir uns discos e fitas coloridos da Disney que, em vez de músicas, continham histórias. Esses hábitos foram embora logo. Passei a ler os livros para mim mesma e a ouvir fitas e discos de música, apenas.

A idéia de um audiolivro, para mim, era associada a crianças ou a cegos. Sem brincadeira. A crianças, pela minha própria experiência na infância; a cegos, porque há um trabalho de produção de “livros falados” na fundação Dorina Nowill. Além disso, eu imaginava que ouvir um livro daria sono na certa.

Pois bem. Com o intuito de contar no blog, resolvi fazer uma experiência tentando ouvir um audiobook. Qual livro ouviria? Achei que uma newbie no mundo da leitura pelo ouvido deveria começar por algo simples. Como eu tinha parado de ler a série Harry Potter no livro 4, resolvi escutar o 5 (HP and the Order of the Phoenix).

Inesperadamente, eu consegui86093108a, sim, prestar atenção sem dormir (sentada, claro, porque das vezes que tentei ouvir na cama, acabei cochilando). Fui tomando gosto pela coisa e me envolvendo com a história, com os personagens, que são muito bem interpretados pelo “narrador” Jim Dale. Sim, consegui ir até o fim – e olha que o livro é longo! – e emendei a leitura “escuta” do HP and the Half-Blood Prince.

Viciei na interpretação do Jim Dale. Agora eu estou ouvindo o último livro e, sério, se tivesse tempo sobrando na minha vida, ouviria os outros livros da série que li. Adorei a experiência. E ainda tem uma vantagem que é deixar o corpo livre para fazer coisas que não te impedem de prestar atenção. Dá pra ouvir um livro correndo, andando de bicicleta, caminhando; lavando a louça, arrumando a casa; fazendo trabalhos manuais ou coisa que o valha.

Numa época corrida como a nossa, em que todos alegam não ler por falta de tempo, eis a solução: escute!

Imagem: Gettyimages.com

Conversas com Woody Allen, de Eric Lax

04/07/2009 por ligia

woody_gde

Os Mortos (ou “o motor da poesia”)

26/06/2009 por fabiocamacho

jobim“pois apenas como fenômenos estéticos são a existência e o mundo eternamente justificados” – F. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia

Pois ontem estava eu entre muitas cotoveladas tentando enxergar o Toquinho, que fazia um desses shows gratuitos na praça, em Ribeirão Preto. A possibilidade de qualquer menção à morte do estranhíssimo Michael Jackson durante o show parecia igualmente incabível e inevitável. Mas não precisou falar nada, porque a morte está irrevogavelmente coroada na poesia dessa geração Bossa Nova.

De qualquer modo, o poeta sem a morte é como o Homero balbuciante de Borges, em Os Imortais. O Rei Lear, sem Cordelia morta nos braços, seria só um velho demente. Yehoshua jamais seria o herói-sol do Salmo 45 sem ter passado pelo Hades. E como Sheherazade ensinou, a vida da poesia não é contada em dias, mas em noites, porque a morte é seu motor, sua natureza, seu ambiente.

Toda obra literária é uma espécie de Terra do Nunca californiana. Imaginei esta insólita conversa, ontem no meio do show. Preocupado, Toquinho advertia Jackson: ”Que é que há? Diz pra mim, o que é que há? Você vai ver, um dia, em que fria você vai entrar. Por cima, uma laje; embaixo, a escuridão. É fogo, irmão. É fogo, irmão.”

Post dedicado à minha amiga Marina, pois juntos cercamos o Toquinho no elevador do shopping, há uns anos.

Os filhos de Anansi, de Neil Gaiman

19/06/2009 por tracinha

Os Filhos de Anansi

Relação física

12/06/2009 por ligia
Não sei quanto a você, mas minha experiência com um livro não se resume ao seu conteúdo. A experiência se inicia antes de ler: por algum motivo ou outro, tenho algumas ideias sobre o livro, recomendações, coisas que li sobre ele, que me levam a querer lê-lo. Depois da vontade de ler, compro uma cópia ou pego emprestada, e então a relação que era abstrata passa a ser também física: visual, tátil, olfativa (e até gustativa, se você é daqueles que lambem a ponta do dedo para virar a página. Não é o meu caso).

Para mim, a relação física com um livro é muito importante. Apesar de a Tia Maricota ter nos ensinado, junto com o a-b-c, que não devemos julgar um livro pela capa, é inegável que as capas constituem a nossa primeira impressão de um livro, quando estamos perambulando e fuçando numa livraria, por exemplo, e muitas vezes são belas capas que nos levam a folhear títulos desconhecidos.

Além disso, como a capa é a primeira parte que vemos do livro, uma das primeiras ideias que fazemos dele vem dessa visão. E ela pode transmitir tanta coisa: pode ser engraçada, inusitada, intrigante; pode ser angustiante, perturbadora, misteriosa; pode ser alegre, despretensiosa, leve… Pode ser péssima, também, e aí estraga um pouquinho o livro, não é mesmo? Ou ao menos a ideia toda que fazemos dele.

Em seguida à admiração (ou ao horror) da capa, vem o miolo, com os mais variados tipos de papel com seus respectivos cheiros, texturas e cores. Particularmente não gosto do cheiro nem da cor de papel jornal, mas como o precinho é amigo, tenho que conviver com isso. Por outro lado, acho que ele tem uma textura bonita (experimente olhar meio de viés e reparar no efeito das ranhurinhas junto com as letras impressas no papel). O papel branco é ok, mas aquele amarelinho claro da Cosac Naify é o meu preferido em termos de cor, cheiro e textura.

Depois de tudo isso, vem o que está escrito no papel (não sem antes reparar na fonte em que o texto foi impresso). E a experiência de ler acaba sendo uma mescla das impressões que as pré idéias, a capa, a cor, o cheiro, a textura, a fonte e os escritos do livro provocam em mim.

historiasfantasticas_gde gorki-infancia-gde SICILIAcapaWEB

 Algumas capas da Cosac Naify: livros de Bioy, Gorki e Elio Vittorini

 eon_thumb last_and_first_men_thumb ringworld_thumb

Capas feitas por Sanda Zahirovic.  Fonte: The Book Cover Archive

3040136347_eeb40c5d5e6a00d8341c3b2653ef010535fc26bc970c-300wi

Edições de luxo da Penguin. Fonte: The Penguin Blog

 

O autor como metáfora

04/06/2009 por fabiocamacho

 ssontagQuando Susan Sontag procurou excluir a metáfora da experiência humana da doença, construiu um poema involuntário. Sua proposta é tão impossível e absurda, que só poderia surgir no discurso de um aflito, um poeta. Assim, embora as pretensões sociológicas de “A Doença como Metáfora” tenham sido, em parte, traídas por esse sentimento de aflição e urgência, suas possibilidades poéticas (metafóricas), terminaram por aflorar.

 A metáfora é a espécie mais primitiva (e nas mãos do artista, a mais elaborada) de má leitura. A interconversão dos objetos e dos conceitos, a confusão de suas definições e características, é a matéria prima do fingimento que está no centro da poesia. Todo texto, em essência, é uma releitura dos antecedentes, necessariamente uma leitura deslocada, distorcida, que se impõe na forma escrita a fim de opor-se aos textos originais.

 Na obra como alegoria de outras obras, às vezes o autor ocupa a desconfortável posição de proposta metafórica adicional, elemento do sistema complexo de referências que constitui a arte poética. Suas pretensões políticas, racionais, ideológicas, são ofuscadas pela força das tensões entre os textos antagonistas subjacentes ao seu discurso, e mesmo a biografia do autor é encoberta, aí.

 Sem a leitura equivocada de tudo o que se dizia sobre seu próprio mal, Sontag não teria passado da intelectual acometida por uma doença grave. Sua tentativa de transpor  o véu dos enganos que liam obliquamente a experiência do câncer e outras doenças, entretanto, resultou em mais um tropo. Ao atentar contra a metáfora, Susan Sontag, a racionalista, tornou-se Jó, o poeta doente.

Everything is illuminated, Jonathan Safran Foer

03/06/2009 por ligia

everything_is_illuminated_thumb 

 

 ”One day you will do things for me that you hate. That is what it means to be a family.”
 ”I am doing something I hate for you. This is what it means to be in love.”

 [WIP]

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra – Mia Couto

29/05/2009 por tracinha

[breve]

Seis problemas para don Isidro Parodi, de H. Bustos Domecq

27/05/2009 por ligia

Seis problemas para don Isidro Parodi - imagenSeis problemas para don Isidro Parodi são contos de Honorio Bustos Domecq, o “terceiro homem” criado por Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares escrevendo em colaboração. 

Borges e Bioy conheceram-se por volta de 1931, na Villa Ocampo. Na época, Adolfito contava apenas 17 anos; Giorgie, mais de 30. Mesmo com a diferença de idade, a amizade entre os dois foi instantânea e definitiva.

No entanto, foi só em 1941 que os escritores inventaram Bustos Domecq, “Bicho Feio” para os íntimos (Bustos é sobrenome de um bisavô de Borges e Domecq, de um bisavô de Bioy). No ano seguinte, publicaram Seis problemas para don Isidro Parodi, sob o pseudônimo dual, com prefácio de Gervasio Montenegro, “amigo do autor e membro da Academia Argentina de Letras”. Diz Gervasio, sobre Bustos Domecq:

“Novo rebento da tradição de Edgard Poe, o patético, do principesco M. P. Shiel e da baronesa de Orczy, atém-se aos momentos capitais de seus problemas: a proposição enigmática e a solução iluminadora. (…) os personagens acodem em pitoresco tropel à cela 273, já proverbial. Na primeira consulta, expõem o mistério que os aflige; na segunda, ouvem a solução que pasma por igual a crianças e anciãos.”

Os personagens vão à cela 273 porque é na cadeia que se encontra o detetive Isidro Parodi. E é de dentro de sua cela, apenas ouvindo os relatos de seus visitantes enquanto ceva o mate na canequinha azul-celeste, que Don Isidro decifra o enigma.

“A imobilidade de Parodi é todo um símbolo intelectual e representa o mais rotundo dos destemidos à vã e febril agitação norte-americana (…).” (Gervasio Montenegro)

Borges e Bioy brincam com o gênero policial sob a voz literária de “Bicho Feio”. Não é à toa que o sobrenome de seu detetive lembra a palavra “paródia”. Apesar de repleto de invenções bem ao gosto de Borges (inventa escritor para prefaciar o livro, inventa personagens que são escritores de livros com títulos impagáveis etc.), é impossível apontar onde está Borges e onde está Bioy. Afinal, como se escreve em dupla?

“Conversávamos livremente sobre a idéia que tínhamos de um tema até que se ia formando, quase sem que propuséssemos, um projeto comum. Depois eu me sentava para escrever, (…). Se a um ocorria a primeira frase, propunha-a, e assim com a segunda e a terceira, os dois falando. Ocasionalmente Borges me dizia: ‘Não, não vá por aí’, ou eu lhe dizia: ‘Já chega, são brincadeiras demais’.” (Bioy)

Dentro da fórmula do gênero policial clássico (“proposição enigmática e solução iluminadora”) Borges e Bioy colocaram muito humor, ironia e sátira. Lendo os contos, eu invocava com uma palavra, com uma frase, e me perguntava: “Quem será que inventou essa?”. Engraçado. Não costumo imaginar o escritor criando enquanto leio um livro. Mas nesse caso foi diferente. Durante toda a leitura, visualizava os dois se divertindo.

Paradise Kiss, de Ai Yazawa

22/05/2009 por tracinha

“I’ll make you so in love with me,
that every time our lips touch,
you’ll die a little death…”

 

 

Em março, assisti a um bate-papo com Menalton Braff, durante evento da Fundação Palavra Mágica. Houve um momento da discussão em que minha atenção – já prejudicada pelo avançar do horário – ligeiramente voltou à vigilância. Um leitor assíduo colocou em pauta a relevância da literatura como ferramenta de transformação. Aqui, entendamos transformação em sua plenitude de significados, desde a abrangência pessoal (em outras palavras, a capacidade de induzir, no indivíduo, reflexões acerca de sua própria existência) até seu sentido político-social. Braff sorriu brejeiramente após a exposição. Foi com entusiasmo que ele confessou que comungara do mesmo pensamento, durante a juventude. Dessa vez, então, fui em quem sorriu. Transbordando de deslumbramento, recordava minhas considerações ásperas acerca das produções que não eram engajadas. O autor, em continuidade, fez um apelo aos que porventura possam ainda pensar dessa forma. As artes e, assim sendo, a literatura, devem ser admiradas com base em critérios outros. Uma produção pode ser esplêndida e reacionária. Por que o caráter engajado de uma obra deva se sobrepor à sua excelência técnica, por exemplo? Um conto bem escrito, com personagens construídos de forma fascinante e encantadora não pode ser subjugado por não induzir as massas à Revolução. Não há castigo (sim, filosofias pessoais podem ser tão opressivas quanto pragmatismos religiosos) em construir e, tampouco, admirar a arte pela arte.

Felizmente, certos preconceitos jazem abandonados em algum período do tempo – junto com nossa adolescência – na irredutibilidade da terra do “Não Volta Mais”. No entanto, é com pesar que faço a triste constatação de que foi apenas ano passado que consegui me livrei de mais um. Até então, levava comigo o pensamento de que apenas grandes obras – e, portanto, grandes autores – eram dignos do meu (escasso) tempo dedicado à leitura. Todos os demais, membros arbitrários da base da grande pirâmide em que tratei de reduzi-los, serviriam apenas à distração, à leitura descompromissada, sem muito trabalho introspectivo. Era nessa base – que galhofeiramente batizarei de “Base do Desprezo” – que se encotravam catalogadas as produções em quadrinhos.

O preconceito tem essa particularidade, que é quase sua definição: o julgamento de uma instância sem conhecimentos/subsídios adequados ou, mesmo, suficientes. Um quase-comodismo daquele que julga: regido pelo preconceito, um indivíduo se dá ao capricho de emergir com uma opinião derradeira, irredutível e inquestionável acerca de algo ou outrem após um singelo contato. Não há vivência intensiva do processo, não há questionamento do estranhamento. Há, tão somente, o pavor de uma experiência que, mesmo breve, deixou (ou parece ter deixado) uma ferida dolorosíssima em seu ego.

Eu conhecia pouco de quadrinhos. Apenas alguns Comic americanos – estórias de super-heróis e mocinhos, ou de grupos desses estratos, que se embatem arduamente, até o mal finalmente sucumbir no último volume. Um contato limitado que me manteve distante dessa arte por muito tempo; quase uma ironia.

Vi (um pouco, mas vi….), não gostei e não quero!

O embrião da transformação veio com Art Spiegelman, apresentado a mim em 2006. Daí em diante, a correnteza de interesse foi  inevitável, passando a Neil Gaiman, Will Eisner, Marjane Satrapi, HQ europeus e aos executores do famigerado Jornalismo em Quadrinhos. Mas o chute derradeiro no nariz empinado do meu preconceito foi desferido pelos Mangás.

Mangá é uma denominação adotada pelos ocidentais para designar produções gráficas com traço japonês. No Japão, por sua vez, o termo se aplica a qualquer história em quadrinhos. A tiragem de mangás corresponde, atualmente, a 35% da produção editorial do Japão. Seu extenso alcance deve-se, principalmente, à diversificação: existem mangás para diferentes faixas etárias, de crianças em alfabetização a adultos. Há uma gama infindável de temas abordados, da história do Japão até a vida universitária atual. O conteúdo das estórias é utilizado para definir o público-alvo, embora essa regra não seja estrita. Mangás em que se desarrolam amores não correspondidos são femininos (shoujos); lutas medievais e o gênero policial são correntes nos mangás para meninos (shonens). Há ainda aqueles voltados ao público adulto, nos quais pode ou não ser explorada a temática da sexualidade. Assim, existem estórias em que predomina o erotismo (hentais) ou o homossexualismo (yuris e yaois).

O traço japonês sofreu grande influência ocidental. O que conhecemos hoje é resultado, inclusive, da miscigenação com características gráficas dos estúdios da Disney. Mas há aspectos em que os mangás se consagram e se diferenciam. Um deles é o modo de conduzir uma narrativa, utilizando riquíssimos recursos gráficos e poucas palavras. Muitas vezes, a essência do que está sendo narrado reside tão somente na expressão facial dos personagens. Ou em um ombro que se movimenta, em uma mão que se esconde… O outro aspecto – na minha opinião, o mais evidente – é a sensibilidade e o abuso das entrelinhas. E foi nesse contexto que Paradise Kiss me surpreendeu.

f_tparadisekim_05e0cce2A protagonista da trama é Yukari Hayasaka, uma colegial cuja rotina de estudos para o vestibular é balançada por um encontro repentino. Quando se dá conta, Yukari está em um porão denominado Paradise Kiss, o ateliê de  três estudantes do curso de Moda de uma Escola de Artes. O convite para que ela seja a modelo a desfilar o vestido do trio é feito rápido e sem muitas formalidades, afinal, já estão atrasados com os preparativos do Festival de Fim de Ano.

A primeira reação da personagem frente aos estudantes de moda é de repulsa. Com o desempenho acadêmico cobrado pela mãe (e não correspondido, por sinal) desde a mais tenra  infância, para Yukari (ou Caroline, como passou a ser chamada pelo grupo) o objetivo de vida de um estudante de 17 anos não pode ser nada menos do que ingressar em uma universidade de renome. Aqueles três não passavam de jovens marginalizados que desperdiçavam suas tardes “brincando de costurar” em um porãoque ainda ousavam denominar “Ateliê”! Por sorte, George, o mentor intelectual do grupo, resolve (pelos outros dois) não desistir tão fácil de Caroline. Daí em diante, o que nossos olhos passam a decodificar  – não necessariamente apenas através das palavras – é a transformação de pensamento que a protagonista sofre, gradual e graciosamente. A constatação da fidedignidade de suas escolhas e de seus objetivos na vida (afinal de contas, entrar para uma universidade não era o sonho dela e sim o de sua mãe), o respeito pelo outro e a vivência de um mundo além dos limites do seu próprio cotidiano surgem e passam a compor coreografias diante de Caroline, como se ela tivesse sido tocada por uma varinha de condão invisível. Epifanicamente. E tão epifânico como o local – o “porão-ateliê” que foi palco e estopim de suas reflexões. Beijada pelo Paraíso.

Ai Yazawa tece suas personagens com extremo cuidado, mas isso não significa necessariamente que se compadece delas. George, o galã-bissexual, exibe um repertório de vícios tão amplo (a começar pelo orgulho desvairado) que ocuparia com prestígio o papel de vilão em uma obra maniqueísta tradicional.  Arashi encanta os leitores pelo seu comportamento desajustado, pontilhado de perversões e transgressões. Até Tokumori, o estudante hard-working aspirante à Faculdade de Medicina, rival de George ao posto de galã, mostrará ao longo da trama que não possui apenas virtudes. E Yukari, ao ganhar seu novo nome, padecerá tanto nas mãos de seus preconceitos quanto nas de sua mãe. Em sua relação com George, agirá com uma puerilidade já estranha à adultice que gradativamente passa a acolher seus pensamentos. Ao mesmo tempo em que exibe uma segurança incomum no processo de tomada de decisões, é capaz de passar noites em claro encharcando um travasseiro por ter sido vítima de alguma “grosseria” de George. Paradoxal porém verossímil, já que o amadurecimento de um indivíduo nem sempre se faz da mesma forma em todas as esferas da vida. E, sem perdas, no campo emocional, Caroline custou a alcançá-lo. E talvez a beleza da história esteja também nesse ponto: não apenas no crescimento que a personagem sofre ao constatar suas limitações, mas no fato de nos identificarmos tanto com ela, com suas ações e, muitas vezes, também com seus pensamentos. E o mais fantástico: constatar que exista tanta semelhança, mesmo sabendo que essa estória foi criada em um lugar distante de nós não apenas no espaço. Afinal, milhares de anos de vivências separadas diferenciaram ocidente do oriente. O contato mais freqüente entre esses dois mundos, que provavelmente se iniciou com as grandes navegações e se intensifiocu gradativamente até chegar à Era Global, ainda não foi capaz de unificar essas realidades. Não existe uma cultura global pois as culturas locais – felizmente! -  resistem, por vezes bravamente, às influências estrangeiras. E, mesmo assim, mesmo na vigência de mundos distintos,  de repente, através de um mangá, descobrimos que somos tão próximos. Chegamos à essência.

Paradise Kiss é impróprio para menores de 16 anos. Prefiro acreditar que não seja pela única “sugestão” de cena de sexo da estória, e tampouco por haver não apenas um personagem bissexual como também um transsexual. Afinal de contas, erotização é o que mais vemos sendo polvilhado em rede nacional pela mídia de massas. E personagens transsexuais e bissexuais são tema de piadas em horário nobre. Oras, se já estamos em condições de satirizá-los e torná-los lúdicos, deve ser porque já fizemos o trabalho ostensivo de aceitá-los. Ou porque somos hipócritas, enfim.

Sem mais detalhes, afinal de contas, à análise da obra como “arte pela arte”, o enredo e o desenrolar da trama oferecem importante contribuição. E, assim, efetuada a leitura e as ponderações, ficará ainda mais evidente aquilo que Paradise Kiss me ensinou de maneira quase lúdica: que o nanquim dos mangakás e quadrinistas seja vislumbrado com o mesmo respeito inspirado pela pena dos autores consagrados.