“I’ll make you so in love with me,
that every time our lips touch,
you’ll die a little death…”
Em março, assisti a um bate-papo com Menalton Braff, durante evento da Fundação Palavra Mágica. Houve um momento da discussão em que minha atenção – já prejudicada pelo avançar do horário – ligeiramente voltou à vigilância. Um leitor assíduo colocou em pauta a relevância da literatura como ferramenta de transformação. Aqui, entendamos transformação em sua plenitude de significados, desde a abrangência pessoal (em outras palavras, a capacidade de induzir, no indivíduo, reflexões acerca de sua própria existência) até seu sentido político-social. Braff sorriu brejeiramente após a exposição. Foi com entusiasmo que ele confessou que comungara do mesmo pensamento, durante a juventude. Dessa vez, então, fui em quem sorriu. Transbordando de deslumbramento, recordava minhas considerações ásperas acerca das produções que não eram engajadas. O autor, em continuidade, fez um apelo aos que porventura possam ainda pensar dessa forma. As artes e, assim sendo, a literatura, devem ser admiradas com base em critérios outros. Uma produção pode ser esplêndida e reacionária. Por que o caráter engajado de uma obra deva se sobrepor à sua excelência técnica, por exemplo? Um conto bem escrito, com personagens construídos de forma fascinante e encantadora não pode ser subjugado por não induzir as massas à Revolução. Não há castigo (sim, filosofias pessoais podem ser tão opressivas quanto pragmatismos religiosos) em construir e, tampouco, admirar a arte pela arte.
Felizmente, certos preconceitos jazem abandonados em algum período do tempo – junto com nossa adolescência – na irredutibilidade da terra do “Não Volta Mais”. No entanto, é com pesar que faço a triste constatação de que foi apenas ano passado que consegui me livrei de mais um. Até então, levava comigo o pensamento de que apenas grandes obras – e, portanto, grandes autores – eram dignos do meu (escasso) tempo dedicado à leitura. Todos os demais, membros arbitrários da base da grande pirâmide em que tratei de reduzi-los, serviriam apenas à distração, à leitura descompromissada, sem muito trabalho introspectivo. Era nessa base – que galhofeiramente batizarei de “Base do Desprezo” – que se encotravam catalogadas as produções em quadrinhos.
O preconceito tem essa particularidade, que é quase sua definição: o julgamento de uma instância sem conhecimentos/subsídios adequados ou, mesmo, suficientes. Um quase-comodismo daquele que julga: regido pelo preconceito, um indivíduo se dá ao capricho de emergir com uma opinião derradeira, irredutível e inquestionável acerca de algo ou outrem após um singelo contato. Não há vivência intensiva do processo, não há questionamento do estranhamento. Há, tão somente, o pavor de uma experiência que, mesmo breve, deixou (ou parece ter deixado) uma ferida dolorosíssima em seu ego.
Eu conhecia pouco de quadrinhos. Apenas alguns Comic americanos – estórias de super-heróis e mocinhos, ou de grupos desses estratos, que se embatem arduamente, até o mal finalmente sucumbir no último volume. Um contato limitado que me manteve distante dessa arte por muito tempo; quase uma ironia.
Vi (um pouco, mas vi….), não gostei e não quero!
O embrião da transformação veio com Art Spiegelman, apresentado a mim em 2006. Daí em diante, a correnteza de interesse foi inevitável, passando a Neil Gaiman, Will Eisner, Marjane Satrapi, HQ europeus e aos executores do famigerado Jornalismo em Quadrinhos. Mas o chute derradeiro no nariz empinado do meu preconceito foi desferido pelos Mangás.
Mangá é uma denominação adotada pelos ocidentais para designar produções gráficas com traço japonês. No Japão, por sua vez, o termo se aplica a qualquer história em quadrinhos. A tiragem de mangás corresponde, atualmente, a 35% da produção editorial do Japão. Seu extenso alcance deve-se, principalmente, à diversificação: existem mangás para diferentes faixas etárias, de crianças em alfabetização a adultos. Há uma gama infindável de temas abordados, da história do Japão até a vida universitária atual. O conteúdo das estórias é utilizado para definir o público-alvo, embora essa regra não seja estrita. Mangás em que se desarrolam amores não correspondidos são femininos (shoujos); lutas medievais e o gênero policial são correntes nos mangás para meninos (shonens). Há ainda aqueles voltados ao público adulto, nos quais pode ou não ser explorada a temática da sexualidade. Assim, existem estórias em que predomina o erotismo (hentais) ou o homossexualismo (yuris e yaois).
O traço japonês sofreu grande influência ocidental. O que conhecemos hoje é resultado, inclusive, da miscigenação com características gráficas dos estúdios da Disney. Mas há aspectos em que os mangás se consagram e se diferenciam. Um deles é o modo de conduzir uma narrativa, utilizando riquíssimos recursos gráficos e poucas palavras. Muitas vezes, a essência do que está sendo narrado reside tão somente na expressão facial dos personagens. Ou em um ombro que se movimenta, em uma mão que se esconde… O outro aspecto – na minha opinião, o mais evidente – é a sensibilidade e o abuso das entrelinhas. E foi nesse contexto que Paradise Kiss me surpreendeu.
A protagonista da trama é Yukari Hayasaka, uma colegial cuja rotina de estudos para o vestibular é balançada por um encontro repentino. Quando se dá conta, Yukari está em um porão denominado Paradise Kiss, o ateliê de três estudantes do curso de Moda de uma Escola de Artes. O convite para que ela seja a modelo a desfilar o vestido do trio é feito rápido e sem muitas formalidades, afinal, já estão atrasados com os preparativos do Festival de Fim de Ano.
A primeira reação da personagem frente aos estudantes de moda é de repulsa. Com o desempenho acadêmico cobrado pela mãe (e não correspondido, por sinal) desde a mais tenra infância, para Yukari (ou Caroline, como passou a ser chamada pelo grupo) o objetivo de vida de um estudante de 17 anos não pode ser nada menos do que ingressar em uma universidade de renome. Aqueles três não passavam de jovens marginalizados que desperdiçavam suas tardes “brincando de costurar” em um porão – que ainda ousavam denominar “Ateliê”! Por sorte, George, o mentor intelectual do grupo, resolve (pelos outros dois) não desistir tão fácil de Caroline. Daí em diante, o que nossos olhos passam a decodificar – não necessariamente apenas através das palavras – é a transformação de pensamento que a protagonista sofre, gradual e graciosamente. A constatação da fidedignidade de suas escolhas e de seus objetivos na vida (afinal de contas, entrar para uma universidade não era o sonho dela e sim o de sua mãe), o respeito pelo outro e a vivência de um mundo além dos limites do seu próprio cotidiano surgem e passam a compor coreografias diante de Caroline, como se ela tivesse sido tocada por uma varinha de condão invisível. Epifanicamente. E tão epifânico como o local – o “porão-ateliê” que foi palco e estopim de suas reflexões. Beijada pelo Paraíso.
Ai Yazawa tece suas personagens com extremo cuidado, mas isso não significa necessariamente que se compadece delas. George, o galã-bissexual, exibe um repertório de vícios tão amplo (a começar pelo orgulho desvairado) que ocuparia com prestígio o papel de vilão em uma obra maniqueísta tradicional. Arashi encanta os leitores pelo seu comportamento desajustado, pontilhado de perversões e transgressões. Até Tokumori, o estudante hard-working aspirante à Faculdade de Medicina, rival de George ao posto de galã, mostrará ao longo da trama que não possui apenas virtudes. E Yukari, ao ganhar seu novo nome, padecerá tanto nas mãos de seus preconceitos quanto nas de sua mãe. Em sua relação com George, agirá com uma puerilidade já estranha à adultice que gradativamente passa a acolher seus pensamentos. Ao mesmo tempo em que exibe uma segurança incomum no processo de tomada de decisões, é capaz de passar noites em claro encharcando um travasseiro por ter sido vítima de alguma “grosseria” de George. Paradoxal porém verossímil, já que o amadurecimento de um indivíduo nem sempre se faz da mesma forma em todas as esferas da vida. E, sem perdas, no campo emocional, Caroline custou a alcançá-lo. E talvez a beleza da história esteja também nesse ponto: não apenas no crescimento que a personagem sofre ao constatar suas limitações, mas no fato de nos identificarmos tanto com ela, com suas ações e, muitas vezes, também com seus pensamentos. E o mais fantástico: constatar que exista tanta semelhança, mesmo sabendo que essa estória foi criada em um lugar distante de nós não apenas no espaço. Afinal, milhares de anos de vivências separadas diferenciaram ocidente do oriente. O contato mais freqüente entre esses dois mundos, que provavelmente se iniciou com as grandes navegações e se intensifiocu gradativamente até chegar à Era Global, ainda não foi capaz de unificar essas realidades. Não existe uma cultura global pois as culturas locais – felizmente! - resistem, por vezes bravamente, às influências estrangeiras. E, mesmo assim, mesmo na vigência de mundos distintos, de repente, através de um mangá, descobrimos que somos tão próximos. Chegamos à essência.
Paradise Kiss é impróprio para menores de 16 anos. Prefiro acreditar que não seja pela única “sugestão” de cena de sexo da estória, e tampouco por haver não apenas um personagem bissexual como também um transsexual. Afinal de contas, erotização é o que mais vemos sendo polvilhado em rede nacional pela mídia de massas. E personagens transsexuais e bissexuais são tema de piadas em horário nobre. Oras, se já estamos em condições de satirizá-los e torná-los lúdicos, deve ser porque já fizemos o trabalho ostensivo de aceitá-los. Ou porque somos hipócritas, enfim.
Sem mais detalhes, afinal de contas, à análise da obra como “arte pela arte”, o enredo e o desenrolar da trama oferecem importante contribuição. E, assim, efetuada a leitura e as ponderações, ficará ainda mais evidente aquilo que Paradise Kiss me ensinou de maneira quase lúdica: que o nanquim dos mangakás e quadrinistas seja vislumbrado com o mesmo respeito inspirado pela pena dos autores consagrados.