Não sei quanto a você, mas minha experiência com um livro não se resume ao seu conteúdo. A experiência se inicia antes de ler: por algum motivo ou outro, tenho algumas ideias sobre o livro, recomendações, coisas que li sobre ele, que me levam a querer lê-lo. Depois da vontade de ler, compro uma cópia ou pego emprestada, e então a relação que era abstrata passa a ser também física: visual, tátil, olfativa (e até gustativa, se você é daqueles que lambem a ponta do dedo para virar a página. Não é o meu caso).
Para mim, a relação física com um livro é muito importante. Apesar de a Tia Maricota ter nos ensinado, junto com o a-b-c, que não devemos julgar um livro pela capa, é inegável que as capas constituem a nossa primeira impressão de um livro, quando estamos perambulando e fuçando numa livraria, por exemplo, e muitas vezes são belas capas que nos levam a folhear títulos desconhecidos.
Além disso, como a capa é a primeira parte que vemos do livro, uma das primeiras ideias que fazemos dele vem dessa visão. E ela pode transmitir tanta coisa: pode ser engraçada, inusitada, intrigante; pode ser angustiante, perturbadora, misteriosa; pode ser alegre, despretensiosa, leve… Pode ser péssima, também, e aí estraga um pouquinho o livro, não é mesmo? Ou ao menos a ideia toda que fazemos dele.
Em seguida à admiração (ou ao horror) da capa, vem o miolo, com os mais variados tipos de papel com seus respectivos cheiros, texturas e cores. Particularmente não gosto do cheiro nem da cor de papel jornal, mas como o precinho é amigo, tenho que conviver com isso. Por outro lado, acho que ele tem uma textura bonita (experimente olhar meio de viés e reparar no efeito das ranhurinhas junto com as letras impressas no papel). O papel branco é ok, mas aquele amarelinho claro da Cosac Naify é o meu preferido em termos de cor, cheiro e textura.
Depois de tudo isso, vem o que está escrito no papel (não sem antes reparar na fonte em que o texto foi impresso). E a experiência de ler acaba sendo uma mescla das impressões que as pré idéias, a capa, a cor, o cheiro, a textura, a fonte e os escritos do livro provocam em mim.

Algumas capas da Cosac Naify: livros de Bioy, Gorki e Elio Vittorini

Capas feitas por Sanda Zahirovic. Fonte: The Book Cover Archive
Edições de luxo da Penguin. Fonte: The Penguin Blog